Artigo 13 ago 2020

Vacinas e antivacinas, o desafio da comunicação transparente

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CIÊNCIA VERSUS CETICISMO, MEDO E ESPECULAÇÃO FINANCEIRA

Na história da saúde pública, a água potável e as vacinas são reconhecidas por sua grande contribuição para a humanidade na prevenção de doenças. A vacinação, sem dúvida, reduz significativamente a morbidade, deficiências, mortalidade e desigualdades em todo o mundo, reduzindo a pobreza e a desigualdade social. 

No entanto, alguns céticos, sem base científica, aderiram a movimentos antivacinas. Miguel Bosé, o popular cantor espanhol, chamou a atenção ao publicar cinco tweets com tópicos contra vacinas que buscam evitar a COVID-19, a instalação de antenas de celular 5G, Bill Gates e a cooperação do governo da Espanha com a Vaccine Alliance (GAVI). Segundo Bosé, que com este tweet viral se apresentou ao mundo como um ativista antivacinação, todos esses conceitos têm algo em comum: fazem parte de um plano supremacista “para obter todo tipo de informação da população mundial e controlá-la”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou os movimentos antivacinas como uma ameaça aos avanços feitos até agora no combate às doenças evitáveis.

Apesar das evidências científicas que comprovam a eficácia e a necessidade das vacinas, o movimento antivacinas tem atraído muita atenção, promovendo teorias infundadas, mas confiáveis ​​para alguns. Para esses seguidores e outros, o medo de doenças mortais foi substituído pelo medo dos efeitos colaterais das vacinas ou pelo medo alimentado pelas teorias de conspiração por trás da vacinação. Ainda, em nota recente, a OMS e o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) alertaram para o declínio alarmante do uso de vacinas e o impacto negativo na saúde pública.

Paradoxalmente, a necessidade de uma vacina para enfrentar a pandemia da COVID-19 coloca o valor das vacinas novamente em destaque. Instituições, governos e empresas estão empenhados no desenvolvimento de uma vacina não apenas para conter a doença, mas para mitigar o problema econômico global que a pandemia está gerando. 

A especulação financeira em torno dos avanços na pesquisa das vacinas contra a COVID-19 também surpreendeu a muitos, levando as empresas farmacêuticas a uma capitalização impressionante. De acordo com dados de especialistas financeiros, cinco das empresas que possuem candidatas a vacina aumentaram sua capitalização de mercado em US$ 50 bilhões.

Diante disso, surgem uma série de questões:

  • É necessária uma nova abordagem de comunicação para reforçar o benefício social e econômico das vacinas?
  • Será que o movimento que busca desgastar as instituições públicas está tendo sucesso?
  • Como uma pessoa com um amplo acesso à informação consegue acreditar que as vacinas fazem parte do plano de uma elite que busca controlar o mundo?
  • O que as empresas e organizações podem fazer para incentivar a vacinação?
  • Quais são os desafios de comunicação e opinião pública que as autoridades de saúde enfrentam?

 

ENTRE O BENEFÍCIO SOCIAL E O IMPACTO ECONÔMICO

De acordo com a OMS, a Global Vaccine Alliance (GAVI) e a International Federation of Pharmaceutical Companies (IFPMA), as vacinas são a forma mais econômica de salvar vidas, promover a boa saúde e o bem-estar prevenindo doenças, mortes e deficiências.

Desde a quase erradicação de doenças, como a poliomielite, até a distribuição bem-sucedida e aplicação em massa da vacina pentavalente, que protege as crianças contra cinco doenças, a vacinação criou uma geração de crianças com mais probabilidade de sobreviver do que as gerações anteriores. Hoje a vacinação previne entre dois e três milhões de mortes por ano, e desde 1990 foi possível reduzir a mortalidade em crianças menores de 5 anos em 52%. Segundo a Global Alliance for Vaccination (GAVI), mais de US$ 150 bilhões em benefícios econômicos foram gerados entre 2000 e 2017. O estudo da OMS, que mediu o impacto econômico da vacinação contra 10 doenças em 73 países, entre 2001 e 2020, concluiu que imunizar a população evitaria mais de 20 milhões de mortes e economizaria US$ 350 bilhões em custos de tratamento de doenças. 

No caso das Américas, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) informa que seis doenças evitáveis ​​foram eliminadas graças à vacinação, o que mostra a eficácia das vacinas e sua contribuição social.

Um grande número de organizações científicas e de saúde confirmou o valor das vacinas. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) recomenda vacinas como essenciais para proteção segura e comprovada contra doenças, além de garantir que efeitos colaterais graves após a vacinação são extremamente raros.

 

“Hoje a vacinação previne entre dois e três milhões de mortes por ano, e desde 1990 foi possível reduzir a mortalidade em crianças menores de 5 anos em 52%”

UM GRITO DE ALERTA: DIMINUIÇÃO NO USO DE VACINAS

O UNICEF e a OMS alertaram para uma redução alarmante no número de crianças em todo o mundo que receberam vacinas essenciais. Segundo essas organizações, a interrupção no fornecimento de vacinas ameaça reverter o progresso da saúde pública ao longo de décadas e impulsiona futuros surtos de doenças. Muitas pessoas rejeitam as vacinas por razões ideológicas, por falta de confiança nos sistemas de saúde e nos profissionais de saúde, e até se opõem à introdução de substâncias no corpo de uma pessoa saudável. Para alguns médicos especialistas, os problemas de cobertura estão mais ligados a motivos de exclusão social e pobreza do que a motivos ideológicos ou movimentos como ” os antivacinas”, uma vez que, segundo dados da OMS, FDA e Agência Europeia de Medicamentos, não há evidências de que as vacinas causem doenças autoimunes ou risco de morte. 

 

A COVID-19 TORNOU A VACINAÇÃO UM DESAFIO

Apesar de todos os benefícios que a vacinação demonstrou para a saúde pública, as coisas não estão indo bem para os fabricantes, organizações e muito menos para os beneficiados pela vacina. De acordo com uma pesquisa realizada pela UNICEF, OMS e GAVI, três quartos dos 82 países que responderam confirmaram que os programas de vacinação foram interrompidos devido a problemas causados pela COVID-19, pois a população não tem acesso aos serviços, há resistência para sair de casa, interrupções no transporte, dificuldades financeiras e restrições de movimentação. O medo do contágio da SarsCov2 é uma das principais razões pelas quais as idas aos centros de vacinação diminuíram. No entanto, a cobertura vacinal estagnou em 85% para as vacinas DTP (tríplice bacteriana) e para sarampo, antes do surgimento da COVID-19.

Dados preliminares para os primeiros quatro meses de 2020 apontam para uma queda substancial no número de crianças que completaram as três doses da vacina contra difteria, coqueluche e tétano. Esta seria a primeira vez em 28 anos que o mundo testemunharia uma redução dessa magnitude.

INFLUÊNCIA DO MOVIMENTO ANTIVACINA

“DIGO NÃO À VACINA, NÃO AO 5G, NÃO À ALIANÇA ESPANHA/BILL GATES. #YoSoyLaResistencia (#EuSouAResistência)”. Essas declarações do cantor espanhol Miguel Bosé parecem ter saído de um filme distópico. Milhares de pessoas em todo o mundo, incluindo grupos de saúde, religiosos, políticos e até científicos, afirmam que as vacinas e a vacinação representam um dano maior à humanidade do que os benefícios que elas possam trazer. O movimento antivacinas cresce, principalmente na internet, e entre os ativistas que o movimento teve em algum momento estão personalidades de grande influência como Donald Trump, Jim Carrey e Luc Montagnier, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 2008, entre outros.

A realidade é que vivemos um momento importante para este tipo de movimento já que com a quantidade e a velocidade de informações e desinformações é fácil se ficar confuso.

“O movimento antivacinas cresce, principalmente na internet, e entre os ativistas que o movimento teve em algum momento estão personalidades de grande influência como Donald Trump, Jim Carrey e Luc Montagnier”

Em que momento o movimento antivacinas passou a ter tanta influência comunicacional quanto o atual?

Desde que Edward Jenner cunhou o termo “vacinação” no Século XVII e propôs inocular uma pessoa com um vírus para protegê-la de outra, sempre houve pessoas que procuraram desacreditar o processo de vacinação. Portanto, a origem dos antivacinas remonta à mesma das vacinas. Eles não são um grupo novo dentro da vida em sociedade, pois nosso modo de pensar, baseado na dualidade, produz isso: se há um elemento A, provavelmente há um elemento anti-A. Se somarmos a isso o sucesso das fake news ou do fenômeno da Pós-Verdade, teremos a combinação perfeita para gerar dúvidas.

 

OS ANTIVACINAS COMO ANTISSISTEMA

Desde o seu início e até alguns anos atrás, o movimento antivacinas tem sido uma força consistente. Seja por motivos religiosos, políticos, familiares, filosóficos ou outros. O debate sobre vacinação está presente para além dos casos de sucesso ou fracasso. Ser antivacinas tornou-se uma questão de identidade. Mais especificamente, uma identidade antissistema.

Ao analisar materiais ou teorias das principais campanhas antivacinas, surgem padrões comuns: teorias contra a tecnologia 5G, conspiração das grandes indústrias farmacêuticas, dominação de figuras reconhecidas como Bill Gates ou George Soros, entre outros. O denominador comum de todas essas linhas narrativas é que “o sistema” tenta controlar ou manipular as pessoas comuns. Isso cria um carrossel de crenças que, ao acreditar em uma, leva você a acreditar nas outras. Por exemplo, se uma pessoa começar a pesquisar teorias sobre 5G no Google, ela vai encontrar argumentos contra as vacinas e vice-versa. Em outras palavras, ser antivacina é cada vez mais parecido com ser antissistema.

NO ENTANTO, O MUNDO ESTÁ ESPERANDO POR UMA VACINA: PROGRESSO

Agora que enfrentamos uma pandemia sem precedentes, a atenção do mundo está na busca por uma vacina para controlar a disseminação do vírus e o acesso equitativo a ela. Em questão de meses, algumas empresas farmacêuticas desenvolveram planos de pesquisa para encontrar soluções usando novas tecnologias e aproveitando as parcerias público-privadas. Laboratórios, pesquisadores e universidades se mobilizaram para descobrir candidatas a vacinas em potencial que já estão em testes clínicos.

Os dados preliminares de três vacinas potenciais foram apresentados como positivos no final de julho. Dois estudos, um da AstraZeneca e da Universidade de Oxford, e outro da empresa chinesa CanSino, foram publicados pela revista The Lancet e ambos mostram uma resposta imunológica na maioria dos recipientes da vacina experimental. Além disso, a empresa alemã BioNTech e a Pfizer relataram que sua candidata a vacina neutralizou os anticorpos do vírus após duas doses. A empresa Modern USA também informou resultados preliminares e iniciou uma fase final da vacina para testar a eficácia em relação à COVID-19. A vacina desta empresa farmacêutica é a primeira a atingir esses níveis fora da China. Os testes com 30 mil voluntários já começaram.

Muitos especialistas e farmacêuticos com uma longa tradição no setor de vacinas afirmaram que é muito cedo para tirar conclusões dos dados atualmente disponíveis e que a fase em que as vacinas experimentais se encontram é crítica para demonstrar a segurança e a eficácia em uma grande população. Alguns preveem que uma vacina estará disponível em meados de 2021. Apesar disso, o preço da ação da AstraZeneca subiu 10%, mas caiu para fechar apenas 1,45% acima do preço inicial.

Situações semelhantes aconteceram com as outras empresas. Há muita informação em torno dos resultados preliminares e muita especulação sobre a possibilidade de ter uma vacina este ano, bem como o preço que a vacina terá e quem terá acesso.

“Um terço dos americanos entrevistados não usaria a vacina para SarsCov2, mesmo se ela estivesse amplamente disponível”

Desenvolver a vacina é um desafio, mas convencer a população a usá-la é outro.

Uma pesquisa publicada pela CNN nos Estados Unidos indicou que um terço dos americanos entrevistados não usaria a vacina para SarsCov2, mesmo se ela estivesse amplamente disponível. Os resultados também mostraram que algumas pessoas são céticas em relação a todos os tipos de vacinas, talvez porque o movimento antivacinas tenha tido sucesso, enquanto outras desconfiam da segurança porque ela está sendo  desenvolvida em tempo recorde e ainda outras consideram que a política contaminou o desenvolvimento da vacina e relutam em usá-la. Tudo isso pode ser devido à falta de confiança no acúmulo de informações e na desinformação que circula.

Uma nova abordagem para a comunicação é necessária, as autoridades de saúde devem recuperar a liderança.

Além da apresentação de resultados clínicos preliminares ou do aumento do valor de mercado das empresas que pesquisam e fabricam vacinas, é necessário convencer novamente a sociedade da utilidade das vacinas. As empresas devem aproveitar este momento histórico para repensar a comunicação, pois antes era responsabilidade dos governos organizar dias de vacinação e convencer as pessoas a comparecerem aos módulos de vacinação, hoje é necessária uma abordagem de confiança gerada pela transparência e pelo valor da ciência.

Este artigo foi elaborado em colaboração com Fernando Arreaza, Consultor Sênior da LLYC Miami e Julieta Rodríguez, Consultora Sênior da LLYC Colômbia.

Alejandro Romero
Sócio e CEO Américas da LLYC
Desde 1997, coordena o processo de expansão da companhia na América Latina, dirigindo nossos 8 escritórios na região. Além disso, Alejandro foi responsável pelos processos de comunicação de três das dez operações mais importantes de M&A na Região: a venda das operações da BellSouth ao grupo Telefónica, a aquisição pelo SABMiller do Grupo Empresarial Bavaria e a venda do grupo financeiro Uno ao Citibank. Como responsável pela operação no México, posicionou a empresa, em somente cinco anos, entre as três mais importantes do país, segundo o ranking anual da revista Merca 2.0.
Javier Marín
Diretor Sênior Healthcare Américas
Javier Marin é um profissional de comunicação e assuntos públicos com experiência nos setores público e privado com mais de 20 anos de experiência em empresas farmacêuticas, biotecnológicas e de ciências da vida. Ao longo de sua carreira desenvolveu campanhas de comunicação social para prevenção e cuidado para a Saúde do governo do México; comunicação corporativa, assuntos governamentais, comunicação interna, marketing, digital e responsabilidade social corporativa, além de programas de relacionamento com grupos de pacientes no México. Para a América Latina e em nível global, trabalhou em empresas como Merck & Co. (MSD) e Johnson & Johnson.
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