Artigo 4 jun 2019

Estados Unidos 2020: os Democratas iniciam a corrida eleitoral

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A primária invisível do Partido Democrata dos Estados Unidos chega ao fim nos dias 26 e 27 de junho. A primária invisível é o período em que os candidatos, depois de anunciarem suas candidaturas (ou, às vezes, até mesmo antes), começam a arrecadar fundos, a criar uma campanha e a buscar apoio entre os vários grupos e alas do partido. Mas, à medida que a corrida eleitoral amplia sua presença na mídia, as primárias vão deixando de ser invisíveis para se tornarem mais e mais visíveis.

E isso nos leva às datas de 26 e 27 de junho. Esses são os dias em que ocorrerão os primeiros debates entre os candidatos. Embora a superabundância de candidatos e as tensões políticas sejam fatores novos, a chave para essa campanha dos democratas segue um padrão clássico: o enfrentamento entre o ‘establishment’ de centro e os “insurgentes” de esquerda. Por acaso, o elemento mais definitivo da campanha de 2020 é que a ala do “establishment” tem um nítido candidato, enquanto o grupo “insurgente” de esquerda carece de um líder definitivo. Isso, em parte, deve-se ao próprio sucesso dessa família ideológica, que levou a mais e mais líderes partidários a adotá-la. Essa matriz entre establishment/novidade, por um lado, e centro/esquerda, de outro, marca a campanha dos principais candidatos. A definição do rival de Donald Trump em 2020 dependerá da resolução deste conflito.

Até o momento, é assim que os principais candidatos estão divididos:

Joe Biden. Establishment: 10 / Novidade: 0

Neste momento, é o candidato mais próximo da vitória. Tem 40% das intenções de voto. Todo mundo o conhece. Conta com o apoio dos grandes doadores. E é, de longe, o candidato com maior poder de atração entre a classe trabalhadora branca, muitas vezes afiliada a sindicatos, que transferiu o apoio do lado democrata para Trump em 2016, dando a vitória a este último. Biden não aporta nenhuma novidade. Mas, pelo menos, não se dedicou a “monetizar” sua temporada fora da política, como fez Hillary Clinton, o que lhe poupa muitos problemas. No nível programático, não é que não seja inovador. É que, literalmente, não tem programa. Pelo menos por agora. No entanto, mais cedo ou mais tarde, Biden terá que apresentar uma ação do Governo. E dar conhecimento a seus assessores. Aí estará seu próximo grande teste. O ex-vice-presidente não pode continuar prometendo basicamente o terceiro mandato de Obama.

Bernie Sanders Establishment: 3 / Novidade: 1

O senador eleito por Vermont foi a maior vítima de sua própria revolução. Suas ideias de saúde universal e educação universitária gratuita foram absorvidas pela maior parte dos demais candidatos, e “Bernie”, como é carinhosamente conhecido entre seus seguidores, perdeu sinais de sua identidade. Além disso, hoje Sanders deixou de ser novidade, porque está há três anos na linha de frente da política dos EUA. Muitos jovens, que eram sua maior base de votos, o abandonaram por Beto O’Rourke, Pete Buttigieg, ou simplesmente retiraram seu apoio, mesmo que não tenham um candidato favorito. Mesmo assim, é o segundo candidato com a maior popularidade, embora o percentual esteja abaixo dos 20%.

Elizabeth Warren. Establishment:  3 / Novidade: 7

A senadora eleita por Massachusetts enfrenta outra armadilha política tão complicada quanto a de Sanders. É muito provável que o seu programa político acabe sendo imposto e que o eventual vencedor das primárias tenha que aceitar uma grande parte de suas ideias em áreas como a regulamentação de empresas tecnológicas (em particular as de redes sociais),  relacionadas ao sistema financeiro, à defesa dos direitos do consumidor e igualdade de gênero… e é muito provável que este candidato não seja ela. A personalidade de Warren só a torna atraente para o eleitor de esquerda e de centro-esquerda com um alto nível educacional. Mesmo assim, Warren permanece na terceira posição na linha da competição, com uma popularidade que varia entre 5% e 10%.

Kamala Harris. Establishment: 5 / Novidade: 8

Harris é, em muitos aspectos, como Warren. Mas com duas diferenças a seu favor: é metade indiana e metade afro-americana e se comunica melhor. O primeiro fator é fundamental para ganhar as primárias. O segundo, em geral, é fundamental na política. Esta senadora tem também a geografia a seu favor. É da Califórnia. Isso significa que tem acesso a fontes de financiamento massivas de grupos de ativistas, empresas tecnológicas e de Hollywood. E que, além disso, o calendário das primárias de 2020 a favorece, uma vez que as datas foram escolhidas para que a Califórnia e outros grandes estados votem antes, o que a deixaria, pelo menos teoricamente, em condição de dar um golpe retumbante em seus rivais O problema é que a campanha da Harris não alavancou. Talvez porque seja pouco conhecida em nível nacional ou porque sua excelente capacidade retórica não foi exibida em nenhum debate.

Pete Buttigieg. Establishment: 5 / Novidade: 10

O prefeito da cidade de South Bend (de apenas 100 mil habitantes) não deveria ser mais do que uma anedota. Por mais que Buttigieg tenha um nível de popularidade semelhante ao de Warren e Harris, sua carreira política deve seguir um esquema bem conhecido nas primárias dos Estados Unidos: um crescimento incontrolável até sua queda. É claro que essa também ia ser a mesma história de Donald Trump em 2016, até ele acabar na Casa Branca. Então é possível – embora não seja provável – que Buttigieg resista. Ele tem a seu favor sua excelente retórica, sua orientação sexual (é gay), seu ar de pureza não contaminada por Washington, seu status de veterano do Afeganistão e sua idade (37 anos, apenas dois a mais do que o necessário para ser presidente).

Beto O’Rourke. Establishment: 5 / Novidade: 9

Seus defensores o veem como um novo Obama. Seus detratores, como o triunfo da imagem sobre a substância. Algo que, infelizmente, também reprovavam no presidente. Beto O’Rourke tem basicamente três coisas a seu favor: ser bonito, ter gravado um vídeo viral em uma viagem que fez do Texas até Washington, de carro, na companhia de um congressista republicano, e ter estado prestes a arrebatar a cadeira no Senado do Republicano e ex-candidato da Casa Branca, Ted Cruz. Não é muito, embora sua derrota por uma diferença mínima contra Cruz tenha sido considerada, por muitos, uma vitória, já que foi disputada no Texas, um estado em que, por um quarto de século, o Partido Republicano deteve o monopólio do poder. O’Rourke, por outro lado, só viu seus números caírem nas pesquisas até perfurar, no início deste mês, o solo dos 5%.

Cory Booker. Establishment: 7 / Novidade: 3

O senador de Nova Jersey é uma combinação de Harris, Biden e Buttigieg. Pertence a uma minoria racial (é afro-americano) e foi prefeito de Newark, uma cidade que muitos americanos associam ao crime e à pobreza. Suas políticas, no entanto, são muito centristas. No passado, foi colaborador de empresa que, para uma parte do Partido Democrata, é sinônimo de interferência da Rússia em favor de Trump nas eleições de 2016: o Facebook. No entanto, definitivamente sua campanha não está funcionando. Em 2016, Booker foi considerado um sucessor natural de Barack Obama. Agora, corre o risco de ser a grande decepção destas primárias. Sua popularidade está caindo, e já tem se aproximado, perigosamente, do 1% em que as senadoras Amy Klobuchar e Kirsten Gillibrand estão presas.

Erich de la Fuente
Sócio e Chairman para Estados Unidos
Erich de la Fuente tem um mestrado em estudos latino-americanos da escola diplomática da Universidade de Georgetown em Washington DC, é graduado em relações internacionais pela Universidade Internacional da Flórida, e está realizando seu doutorado em filosofia, na área de governabilidade, no programa conjunto da Universidade de Nações Unidas-Universidade de Maastricht. Sua tese doutoral estuda o estado da liberdade de prensa na América Latina. Além de espanhol e inglês, Erich fala português, italiano e russo.Como profissional, Erich se especializou em design e implementação de estratégias de comunicação corporativa, assuntos públicos, comunicação interna e gestão de crise para clientes corporativos e organizações sem intenção de lucro. Também se desempenhou o papel de analista político e arquiteto de iniciativas internacionais de anticorrupção e boa governabilidade. Na área de desenvolvimento internacional, Erich, com mais de 20 anos de experiência no setor, participou em múltiplos projetos como assessor de entidades multilaterais e a agência norte-americana para o desenvolvimento, USAID.
Pablo Pardo
Jornalista correspondente do El Mundo
Pablo Pardo é correspondente do jornal El Mundo nos Estados Unidos, onde vive desde 2002. É mestre (MA) em Política e Economia Internacional pela Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS) da Universidade Johns Hopkins. Publicou nas revistas The Atlantic, Foreign Policy, National Geographic e The Weekly Standard e colaborou com os think tanks New America Foundation e Atlantic Council (em Washington) e o Centre for European Reform (em Londres). Ele é Aspen Fellow e participou de seminários nas Universidades de Columbia, Harvard (Weatherthead Center) e Oxford (Christ Church College). Ganhou o prêmio Sir Antony Fisher, da Fundação Atlas (2009); o Jovem e Brilhante de Jornalismo Econômico (2005); o Citi Journalistis Excellence Award (2001); e o Centenário da Previdência Social (2001).
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