Artigo 21 nov 2017

A América Latina e o desafio das cidades inteligentes

A América Latina é a região em desenvolvimento com a maior taxa de urbanização do planeta, e segundo estimativa das Nações Unidas, em 2050, 90% da sua população viverá em megacidades. Isso representa um desafio para os países que não conseguiram resolver os grandes problemas dessas imensas aglomerações urbanas, que são: pobreza, insegurança, poluição e mobilidade.

A disseminação do conceito de smart city, ou cidade inteligente, levou muitos a buscar soluções para os desafios tecnológicos enfrentados pelas cidades. De fato, a tecnologia tem sido historicamente essencial para o progresso social, como a máquina a vapor, que iniciou a revolução industrial e o surgimento da classe média. Porém, a tecnologia por si só não é uma solução para esses desafios. Podemos ter soluções tecnológicas para erradicar a pobreza, reduzir a desigualdade, controlar a poluição e racionalizar a mobilidade, mas os problemas continuam. Portanto, a falta de uma solução parece ser por razões não tecnológicas.

“A cidade, considerada um projeto que coexiste harmoniosamente em um território, é inteligente quando as condições de vida dos cidadãos são ótimas”

A comunidade de tecnologia, provavelmente fora de seu interesse, impôs a narrativa da cidade inteligente com base nos indicadores de desempenho da gestão de serviços municipais. Afirmar que uma cidade é inteligente por usar novas tecnologias para gerenciar todos os processos de serviços municipais é uma abordagem reducionista. A cidade, considerada um projeto que coexiste harmoniosamente em um território, é inteligente quando as condições de vida dos cidadãos são ótimas. Filósofos, arquitetos e comunicadores devem unir forças e projetar a cidade para redirecionar o curso que a opinião popular tomou recentemente sobre o modelo de gestão pública. Mais conceitos devem ser envolvidos na área de cidades inteligentes, como: qualidade de vida, resiliência, desaceleração e até mesmo felicidade. Alguns pesquisadores desenvolveram classificações de cidades inteligentes que levam tudo isso em conta, como o nível educacional e a expectativa de vida, mas a maioria dos métodos publicados priorizam os indicadores tecnológicos.

“A oportunidade na América Latina é que a gestão urbana se tornou um tema de debate recorrente com a crescente popularidade das cidades inteligentes”

A oportunidade na América Latina é que a gestão urbana se tornou um tema de debate recorrente com a crescente popularidade das cidades inteligentes. Cinco anos atrás, a cidade inteligente foi objeto de análise em congressos de negócios, em um número crescente de artigos científicos e em reuniões de administradores municipais. O número de resultados de pesquisas no Google sobre este tópico cresceu exponencialmente; e a classificação das cidades em rankings forçaram os prefeitos a entrar na competição, modernizando suas cidades para que se mantenham na ponta como cidades ‘inteligentes’, e que não caiam no buraco das cidades ‘burras’. Para as pessoas, a cidade é o principal espaço legalmente estabelecido para a interação social, uma vez que a base da maioria dos fatores de qualidade de vida depende do seu bom funcionamento. Na América Latina, o estabelecimento de conversas profundas sobre gestão municipal deve levar a melhorias na prestação de serviços públicos e na convivência harmoniosa.

A CIDADE INTELIGENTE SE CLASSIFICA EM SEIS:

Governo inteligente, meio ambiente inteligente, economia inteligente, mobilidade inteligente, cidadãos inteligentes e estilo de vida inteligente. A América Latina pode melhorar em todos esses aspectos, mas também tem modelos que podem ser de exemplos para outras regiões.

Governo inteligente

A primeira categoria, governo inteligente, refere-se à oferta de serviços eletrônicos, além de medidas e políticas que contribuem para a transparência e a participação dos cidadãos nos processos de tomada de decisão. A maioria dos países latino-americanos está atrasada na implementação de administrações eletrônicas em comparação com a Europa e América do Norte, com exceção da Colômbia e do Chile, que realizaram progressos, pelo menos nas administrações nacionais. Recomenda-se um maior investimento na administração eletrônica da região. Isso resultaria em redução de custos de longo prazo, tanto para a administração pública quanto para o setor privado. Além disso, a implementação de iniciativas que promovem a participação dos cidadãos fortaleceria as instituições. Existem estudos de caso na América Latina, como o de Porto Alegre, que, em 1988, tornou-se a primeira grande cidade global a adotar orçamentos participativos. Existem também projetos inovadores recentes, como a plataforma tecnológica Mudamos.org, no Brasil, que permite a votação de contas online. Vale ressaltar também que o Brasil e principalmente o México ocupam posições de destaque no Open Standard Barometer do World Wide Web Foundation.

Meio ambiente inteligente

Meio ambiente inteligente se refere à redução do impacto no meio ambiente e a implementação de medidas de eficiência energética. Existe um paradoxo nesta região: por um lado, é o maior ‘pulmão verde’ do planeta e, ao mesmo tempo, sofre com a grande poluição nas megacidades. A cidade de Medellin é um estudo de caso internacional para o planejamento urbano, liderado por seus três últimos prefeitos que promoveram sistemas de transporte de menor impacto ambiental e promover a conscientização da sociedade sobre proteção ambiental. Os consultores do IDB para cidades de médio porte, como Cuenca (no Equador), Trujillo (no Peru) e Montevidéu (no Uruguai), também foram fonte de transformação na gestão ambiental urbana. Contudo, os líderes municipais regionais ainda precisam se comprometer com um avanço firme e contínuo para apoiar as energias renováveis; desta forma, reduzindo o consumo de recursos naturais e melhorando a confiabilidade das redes de distribuição de energia elétrica, água e esgoto.

Economia inteligente

Com relação à economia inteligente, existem diferenças significativas entre os países. Por um lado, a produtividade se baseia em salários baixos e exemplos de inovação empresarial são difíceis de encontrar nas cidades. É preciso fortalecer os sistemas de pesquisa e inovação para que contribuam para o desenvolvimento de todo o ecossistema urbano. Por outro lado, em uma região onde apenas o Chile e o Panamá estão entre os 50 maiores no índice de competitividade global, há uma clara necessidade de implementar reformas que aumentem a produtividade e estabeleçam políticas que favoreçam o desenvolvimento de empresas inovadoras com visão internacional.

Mobilidade inteligente

Mobilidade se tornou um grande problema nas megacidades da América Latina devido à falta de infraestruturas e sistemas de transporte público, aumento do uso de veículos particulares e falta de disposição política para regulamentá-lo. Por exemplo, os casos de Bogotá, com a implementação do Transmilenio, e Curitiba (no Brasil), com as medidas de combinação para aliviar congestionamentos no trânsito e um sistema de transporte inovador, precisam ser estudados por outras grandes cidades. Modelos de negócio inovadores resultantes de novas tecnologias podem permitir o financiamento dessas infraestruturas.

Cidadãos inteligentes

O alcance da educação é um dos avanços mais notáveis da região neste século, pois é o reconhecimento e o apoio aos grupos étnicos mais desfavorecidos em cidades como o Rio de Janeiro. Uma nova geração de cidadãos inteligentes, de mentes abertas e empenhadas para melhorar suas comunidades, representa a esperança de um futuro promissor em cidades como Lima, Bogotá e Quito. A promoção contínua da educação e inclusão digital é essencial para a criação de um ecossistema próspero.

Estilo de vida inteligente

Buenos Aires e Cidade do México são localidades culturais. O turismo continua crescendo na Cidade do Panamá (no Panamá) e em San José (na Costa Rica). O índice de qualidade de vida nas cidades latino-americanas cresceu de forma constante neste século. Porém, sérios problemas persistem, incluindo falta de segurança e falta de serviços de saúde. Mas as novas tecnologias poderiam resolver esses problemas. Um exemplo é o Centro de Operações do Rio de Janeiro, instalado antes dos dois principais eventos esportivos realizados na cidade em 2014 e 2016. Este é provavelmente o sistema de segurança tecnológica mais completo e avançado do mundo.

A tecnologia deve contribuir para a resolução de desafios básicos e recorrentes tanto regionais quanto mais específicos de cada território, pois as cidades têm suas próprias características. Por um lado, a diferenciação é uma forma de competir por investimentos, talentos e outros recursos. A personalidade de uma cidade é o resultado da livre participação dos cidadãos na tomada de decisões sobre o futuro do projeto compartilhado dos lugares onde vivem.

O trabalho colaborativo envolvendo todas as diferentes partes interessadas no ecossistema pode acelerar o progresso das cidades em seus desafios de se tornarem inteligentes e compreenderem a palavra ‘inteligente’ de uma forma que esse progresso real

A visão ampla da cidade inteligente, que identifica a oportunidade para a América Latina no debate sobre gestão municipal, que surgiu sem se concentrar unicamente na tecnologia, exige permitir que o ecossistema atinja o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. O trabalho colaborativo envolvendo todas as diferentes partes interessadas no ecossistema (governos, empresas, pesquisadores, setor terciário e cidadãos) pode acelerar o progresso das cidades em seus desafios de se tornarem inteligentes e compreenderem a palavra ‘inteligente’ de uma forma que esse progresso real.

AUTORES

Javier Rosado

Javier Rosado

Sócio e Diretor Geral da LLORENTE & CUENCA no Panamá

Rosado já liderou projetos principalmente relacionados à comunicação de crise, comunicação de infraestruturas e comunicação durante litígios. Antes de começar na empresa, Rosado foi diretor de comunicação da Refinaria Gibraltar-San Roque da CEPSA e gerenciou a comunicação da Petresa e Interquisa. Rosado trabalhou por quatro anos na Editorial Planeta, e por seis anos como jornalista em diferentes veículos de comunicação da Espanha, como Cadena Ser, Marca, ABC e Agencia EFE.

Raimundo Díaz

Raimundo Díaz

Diretor Sênior da LLORENTE & CUENCA no Panamá

Diaz concluiu seu mestrado em Marketing pela ESIC e PhD em Administração de Negócios pela Universidade de Cantabria, com a tese: Innovación abierta y modelos de negocio en ciudades inteligentes (Inovação aberta e modelos de negócios em cidades inteligentes. Diaz apresentou suas pesquisas sobre e-Business e cidades inteligentes em conferências de universidades de vários países e em quatro artigos científicos publicados por periódicos acadêmicos indexados na JCR.

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